

Como usar este guia
Este é um guia longo, feito para ser consultado. Se você tem uma dúvida específica, vá direto ao capítulo:
- Ainda decidindo se vale a pena: capítulos 2, 3 e 12.
- Vai abrir a empresa agora: capítulos 4, 5, 6 e 22.
- Quer pagar menos imposto: capítulos 7, 8 e 13.
- Já é PJ e quer organizar a rotina: capítulos 11, 14, 25 e 32.
- Quer se preparar para 2027: capítulo 15.
- Quer ver um exemplo do começo ao fim: capítulo 30.
1. O guia em 2 minutos
- O que é: você presta serviços médicos por meio de uma empresa, que emite nota fiscal e paga impostos menores que os da pessoa física.
- Tipo de empresa: SLU (um sócio) ou sociedade limitada (vários sócios). MEI não é permitido para medicina.
- Regimes: Simples Nacional (Anexo III, a partir de 6%, ou Anexo V, a partir de 15,5%) e Lucro Presumido (cerca de 11,33% mais ISS).
- Fator R: com folha, incluindo o pró-labore, de pelo menos 28% do faturamento, o médico fica no Anexo III, mais barato.
- Retirada do dinheiro: pró-labore (com INSS e IR) e lucros (isentos até R$ 50 mil por mês por empresa, pela Lei 15.270/2025).
- Quanto se economiza: em geral, de 8 a 13 pontos percentuais do faturamento em relação ao autônomo.
- Obrigações: nota fiscal, guias mensais, declarações anuais, registro no CRM e contabilidade.
- 2027: a reforma tributária muda a nota e os tributos; quem está no Simples terá uma escolha a fazer.
2. O que é ser médico PJ
Médico PJ é o profissional que trabalha por meio de uma pessoa jurídica, a chamada PJ médica. Em vez de receber por RPA, holerite ou recibo como pessoa física, quem recebe é a empresa do médico, que emite nota fiscal pelos plantões, consultas, cirurgias e procedimentos.
Essa forma de trabalho se tornou o padrão em boa parte da medicina brasileira. Hospitais, clínicas, operadoras, cooperativas e empresas de escala preferem contratar pessoa jurídica, porque a relação fica mais simples e previsível. Para o médico, a vantagem principal é tributária: a empresa paga impostos sobre o faturamento com alíquotas menores que as do Imposto de Renda da pessoa física, que chega a 27,5%.
Ser PJ não muda a sua responsabilidade técnica nem a sua relação com o CRM. Você continua sendo o médico responsável pelo atendimento. O que muda é a forma de faturar, de pagar impostos e de organizar o dinheiro.
Quem contrata médico PJ
- Hospitais: plantões, coordenação, cirurgias e procedimentos.
- Clínicas e centros médicos: consultas e exames, muitas vezes com repasse de um percentual.
- Empresas de escala e de gestão médica: intermediam plantões em vários hospitais.
- Operadoras e convênios: atendimento credenciado, pago por produção.
- Telemedicina: plataformas que pagam por consulta.
- Pacientes particulares: quando você tem consultório e emite nota para pessoa física.
3. Quando vale a pena virar PJ
A decisão depende de três coisas: quanto você fatura, quem paga você e quais são os seus planos. Na maioria dos casos, a conta fecha a favor da empresa bem cedo.
| Faturamento por mês | Como autônomo | Como PJ (melhor regime) |
|---|---|---|
| R$ 12 mil | cerca de 25,5% | cerca de 9% (Simples, Fator R) |
| R$ 30 mil | cerca de 26,7% | cerca de 15,5% (Simples, Fator R) |
| R$ 60 mil | cerca de 27,1% | cerca de 15,2% (Lucro Presumido) |
| R$ 120 mil | cerca de 27,3% | cerca de 16,3% (Lucro Presumido) |
Os percentuais somam todos os impostos (da empresa, do INSS e do IR do pró-labore) e foram calculados sem deduções, com ISS de 3% no Lucro Presumido. Os detalhes de cada cenário estão no capítulo 13.
Sinais de que já passou da hora
- O contratante exige CNPJ para pagar plantões ou produção.
- Você fatura a partir de R$ 6 mil a R$ 8 mil por mês: nessa faixa, a economia já paga a contabilidade com folga.
- Você recebe de vários lugares e precisa de organização.
- Você pensa em ter consultório, sócios ou financiar equipamentos: a empresa facilita crédito e estrutura.
- Você quer planejar patrimônio e sucessão: a PJ é o primeiro passo para uma estrutura com holding, quando faz sentido.
Quando ainda não compensa
Se você faz poucos atendimentos, com renda baixa e irregular, ou se está só no CLT com um plantão eventual, os custos fixos da empresa (contabilidade, certificado digital, anuidade do CRM) podem não se pagar. Nesses casos, vale simular antes. Use a calculadora de CLT × PJ ou a de plantão PF × PJ.
4. Tipos de empresa para médico
A escolha do tipo de empresa define quem pode ser sócio, onde ela é registrada e quais regimes estão disponíveis.
| Tipo | Para quem | Observação |
|---|---|---|
| SLU (Sociedade Limitada Unipessoal) | Médico sozinho | O formato mais comum hoje; não exige capital mínimo nem sócio |
| Sociedade limitada | Dois ou mais sócios | Exige contrato social com regras de entrada, saída e divisão de lucros |
| Sociedade simples | Sócios que exercem a profissão pessoalmente | Registrada em cartório; pode ser uniprofissional, com ISS fixo em alguns municípios |
| Sociedade empresária | Clínicas com estrutura e equipe | Registrada na Junta Comercial; exigida para a equiparação hospitalar |
| MEI | Não permitido | A medicina não está entre as atividades do MEI |
SLU ou sociedade com outros médicos
Se você trabalha sozinho, a SLU é o caminho mais simples: um sócio, responsabilidade limitada ao capital e nenhuma necessidade de dividir decisões. Se vai dividir consultório, equipe ou contratos com colegas, a sociedade limitada faz mais sentido, mas exige um contrato social bem feito, com regras de entrada e saída, divisão de lucros e o que acontece se um sócio deixar a empresa. Veja o que pode dar errado em saída de sócio em clínica médica.
Sociedade uniprofissional
Em alguns municípios, como São Paulo, sociedades formadas só por médicos que trabalham pessoalmente, sem caráter empresarial, podem pagar o ISS em valor fixo por profissional, em vez de um percentual sobre o faturamento. Para faturamentos altos, a economia é grande. As regras variam por município e mudam com a reforma tributária até 2032. Simule na ferramenta de sociedade uniprofissional.
5. Como abrir a empresa
O processo é quase todo digital e, sem consultório próprio, costuma levar de 1 a 3 semanas. Em resumo:
- Definir o tipo de empresa, os sócios e o capital social.
- Escolher o CNAE da sua atividade (capítulo 6).
- Escolher o endereço: consultório próprio ou endereço fiscal, quando você atende só em hospitais e clínicas.
- Registrar a empresa na Junta Comercial (sociedade empresária e SLU) ou no cartório (sociedade simples) e obter o CNPJ.
- Fazer a inscrição municipal e a licença de funcionamento.
- Registrar a empresa no CRM do seu estado.
- Escolher o regime tributário (capítulo 7) e pedir a opção pelo Simples, se for o caso.
- Emitir o certificado digital (e-CNPJ) e configurar a emissão de notas.
- Abrir a conta PJ, separada da conta pessoal.
O passo a passo completo está em como abrir CNPJ para médico em 2026, e os custos de cada etapa em quanto custa abrir CNPJ para médico. Na Move, a abertura é grátis a partir do plano PRÓ.
6. CNAE, CRM e registros obrigatórios
O CNAE é o código que diz à Receita e à prefeitura o que a sua empresa faz. Para medicina, os mais usados são:
| CNAE | Descrição | Quando usar |
|---|---|---|
| 8630-5/03 | Atividade médica ambulatorial restrita a consultas | Consultas, sem procedimentos |
| 8630-5/02 | Atividade médica ambulatorial com recursos para exames complementares | Consultório com exames |
| 8630-5/01 | Atividade médica ambulatorial com recursos para procedimentos cirúrgicos | Procedimentos ambulatoriais |
O CNAE errado pode levar a ISS maior, enquadramento errado no Simples ou problemas com a Vigilância Sanitária. Pesquise o seu na pesquisa de CNAE e veja o guia de CNAE por especialidade.
Registros que a empresa médica precisa ter
- CRM: toda empresa que presta serviços médicos precisa estar registrada no conselho do estado, com um médico como responsável técnico.
- Inscrição municipal: para emitir nota fiscal de serviço e recolher ISS.
- Licença de funcionamento: conforme as regras do município.
- Vigilância Sanitária e CNES: quando há consultório ou clínica com atendimento no local.
- Certificado digital: para notas, guias e declarações.
7. Regimes tributários: Simples Nacional ou Lucro Presumido
Esta é a decisão que mais pesa no bolso. O médico PJ pode escolher entre o Simples Nacional e o Lucro Presumido. O Lucro Real existe, mas raramente compensa para quem presta serviço médico.
Simples Nacional
No Simples, a empresa paga um único boleto por mês, o DAS, que reúne IRPJ, CSLL, PIS, COFINS, INSS patronal e ISS. A alíquota depende do faturamento dos últimos 12 meses e do anexo. A medicina pode ficar no Anexo III ou no Anexo V, conforme o Fator R.
| Faturamento em 12 meses | Anexo III | Anexo V |
|---|---|---|
| Até R$ 180 mil | 6% | 15,5% |
| De R$ 180 mil a R$ 360 mil | 11,2% (dedução de R$ 9.360) | 18% (dedução de R$ 4.500) |
| De R$ 360 mil a R$ 720 mil | 13,5% (dedução de R$ 17.640) | 19,5% (dedução de R$ 9.900) |
| De R$ 720 mil a R$ 1,8 milhão | 16% (dedução de R$ 35.640) | 20,5% (dedução de R$ 17.100) |
| De R$ 1,8 milhão a R$ 3,6 milhões | 21% (dedução de R$ 125.640) | 23% (dedução de R$ 62.100) |
| De R$ 3,6 milhões a R$ 4,8 milhões | 33% (dedução de R$ 648.000) | 30,5% (dedução de R$ 540.000) |
Essas são as alíquotas nominais. A alíquota que você paga de verdade, a efetiva, é calculada assim: (faturamento de 12 meses × alíquota nominal − dedução) ÷ faturamento de 12 meses. Por exemplo, com R$ 30 mil por mês (R$ 360 mil em 12 meses), a efetiva fica em 8,6% no Anexo III e 16,75% no Anexo V.
Lucro Presumido
No Lucro Presumido, a Receita presume que 32% do faturamento de serviços é lucro e cobra os tributos federais sobre essa base, mais o ISS do município:
| Tributo | Como é calculado | Sobre o faturamento |
|---|---|---|
| IRPJ | 15% sobre 32% do faturamento | 4,8% |
| Adicional de IRPJ | 10% sobre a base que passar de R$ 20 mil por mês | Só acima de R$ 62,5 mil de faturamento mensal |
| CSLL | 9% sobre 32% do faturamento | 2,88% |
| PIS | Cumulativo | 0,65% |
| COFINS | Cumulativo | 3% |
| ISS | Conforme o município | De 2% a 5% |
Somando, são cerca de 11,33% mais o ISS. No Presumido, a empresa também paga 20% de INSS patronal sobre o pró-labore, o que favorece manter o pró-labore baixo. Compare os dois regimes com os seus números na calculadora de Simples × Presumido.
Equiparação hospitalar
Clínicas que realizam procedimentos de natureza hospitalar, como cirurgias, exames de imagem e diagnóstico, podem pagar IRPJ sobre uma presunção de 8% (em vez de 32%) e CSLL sobre 12%, desde que sejam sociedade empresária e cumpram as normas da Anvisa. Consultas não entram. Para clínicas com esse perfil, a economia é grande. Veja equiparação hospitalar.
E o Lucro Real?
No Lucro Real, os impostos incidem sobre o lucro contábil de verdade. Ele faz sentido para empresas com custos muito altos ou prejuízo, o que é raro em serviços médicos. Para a maioria dos médicos PJ, a disputa é entre Simples e Presumido.
8. Fator R: a regra que define o seu imposto no Simples
O Fator R é a conta que decide se a sua empresa fica no Anexo III ou no Anexo V do Simples:
Fator R = folha de pagamento dos últimos 12 meses ÷ faturamento dos últimos 12 meses
A folha inclui o pró-labore dos sócios, salários de funcionários e encargos como o INSS. Se o resultado for 28% ou mais, a empresa fica no Anexo III, a partir de 6%. Abaixo de 28%, vai para o Anexo V, a partir de 15,5%.
Exemplo
Com faturamento de R$ 30 mil por mês, para ter Fator R de 28% a folha precisa ser de R$ 8.400 por mês. Sem funcionários, isso significa um pró-labore de R$ 8.400. Ele paga INSS de 11% (R$ 924) e cerca de R$ 1.147 de IR. Mesmo com esse custo, o total de impostos fica em cerca de R$ 4.651 por mês (15,5%), contra R$ 5.203 (17,3%) no Anexo V com pró-labore mínimo.
Quando o Fator R deixa de compensar
O ganho do Fator R diminui conforme o faturamento sobe, porque o pró-labore necessário fica maior e o IR sobre ele também. Com R$ 60 mil por mês, o Anexo III com Fator R e o Anexo V ficam praticamente empatados, em cerca de 18,4%. Nessa faixa, o Lucro Presumido, com cerca de 15,2%, costuma ser a melhor opção. É por isso que o regime deve ser revisado todo ano.
Calcule o seu na calculadora de Fator R e entenda os detalhes em o que é o Fator R na medicina.
9. Pró-labore: quanto definir e quanto custa
O pró-labore é a remuneração do sócio pelo trabalho na empresa. Ele é obrigatório quando o sócio trabalha na empresa, e é sobre ele que você contribui para o INSS e garante a aposentadoria e os benefícios.
- INSS: 11% descontado do sócio, até o teto da Previdência (cerca de R$ 930 por mês em 2026).
- INSS patronal: no Simples Anexo III e V, já está dentro do DAS; no Lucro Presumido, a empresa paga mais 20%.
- Imposto de Renda: na tabela progressiva. Desde 2026, pela Lei 15.270/2025, quem recebe até R$ 5 mil por mês fica isento, e há redução parcial até R$ 7.350.
Como definir o valor
| Regime | Estratégia comum | Por quê |
|---|---|---|
| Simples, buscando o Anexo III | Pró-labore em torno de 28% do faturamento | Para manter o Fator R |
| Simples, já no Anexo V | Pró-labore baixo | Não há ganho em elevar a folha |
| Lucro Presumido | Pró-labore baixo, com o resto em lucros | Evita os 20% de INSS patronal e o IR |
Pró-labore muito baixo reduz imposto hoje, mas também reduz o valor da sua aposentadoria pelo INSS. Vale planejar com a previdência privada. Leia sobre aposentadoria do profissional de saúde PJ.
10. Distribuição de lucros e a Lei 15.270/2025
Depois de pagar os impostos e as despesas, o que sobra na empresa é lucro e pode ser distribuído aos sócios. Até 2025, a distribuição era totalmente isenta de IR. A partir de 2026, a Lei 15.270/2025 trouxe duas mudanças:
- Retenção de 10% na fonte: quando uma mesma empresa paga mais de R$ 50 mil por mês em lucros à mesma pessoa física, há retenção de 10% sobre o total pago no mês.
- IR mínimo anual: quem tem renda total acima de R$ 600 mil por ano passa a ter um imposto mínimo, que chega a 10% para rendas a partir de R$ 1,2 milhão. Os impostos já pagos pela empresa são considerados no cálculo.
Para a maioria dos médicos PJ, que distribuem menos de R$ 50 mil por mês, nada muda na prática. Para quem fatura mais, o planejamento ficou importante: distribuir de forma regular, avaliar a renda do ano inteiro e, em alguns casos, rever a estrutura com sócios ou holding. Veja como fazer em distribuição de lucros com a Lei 15.270 e simule na calculadora de distribuição de lucros.
Quanto pode ser distribuído no Simples
No Simples, sem contabilidade completa, o valor que pode ser distribuído com isenção é limitado a uma presunção sobre o faturamento (32% para serviços), descontada a parte de IRPJ paga no DAS. Com contabilidade completa, com balanço e escrituração, é possível distribuir todo o lucro contábil apurado. Por isso, uma contabilidade completa costuma valer a pena para quem retira muito da empresa.
Cuidados com a distribuição
- Registre cada retirada como pró-labore ou lucro, nunca como “transferência”.
- Não distribua mais do que o lucro apurado.
- Evite pagar despesas pessoais pela conta PJ, porque isso confunde a contabilidade e pode ser tratado como distribuição disfarçada.
11. Nota fiscal, retenções e recebimento
A nota fiscal de serviço (NFS-e) é o documento que comprova o seu faturamento. Desde 2026, os municípios passaram a usar o padrão nacional da NFS-e, que também vai receber os campos da reforma tributária. Veja NFS-e Nacional 2026.
Boas práticas
- Uma nota por tomador no mês, com o período e a quantidade de plantões ou atendimentos na descrição.
- Descrição de acordo com o CNAE e com o contrato.
- Para pacientes pessoa física, emita a nota com o CPF do paciente: esses dados entram na DMED, a declaração anual dos serviços de saúde.
Retenções na nota
| Retenção | Quando acontece | Empresa do Simples |
|---|---|---|
| IRRF de 1,5% | Tomador pessoa jurídica | Não se aplica |
| PIS, COFINS e CSLL (4,65%) | Tomador pessoa jurídica | Não se aplica |
| ISS | Quando o município exige a retenção pelo tomador | Pode ocorrer |
Os valores retidos são antecipações e devem ser abatidos dos impostos da empresa. Se você é do Simples, informe a opção na nota para evitar retenções federais indevidas. Quem atende em várias cidades deve ver como fica o ISS do plantonista em vários municípios.
Recebimento e glosas
Atrasos de 30 a 90 dias e glosas de convênios são comuns. Controle cada nota até o pagamento, confira os demonstrativos de repasse e negocie prazos e regras de glosa no contrato. Veja as cláusulas do contrato de médico PJ.
12. Médico PJ, autônomo ou CLT
As três formas podem conviver: muitos médicos têm um vínculo CLT, plantões como PJ e alguns atendimentos como autônomos. O que importa é entender o custo de cada uma.
| Autônomo | CLT | PJ | |
|---|---|---|---|
| Como recebe | RPA ou recibo, como pessoa física | Holerite | Nota fiscal da empresa |
| Impostos | INSS e IR de até 27,5% | INSS e IR na fonte | De 6% a 16% na empresa, mais o pró-labore |
| Direitos | Nenhum | Férias, 13º, FGTS | Os que você negociar no contrato |
| Custo fixo | Baixo | Nenhum | Contabilidade, certificado e CRM |
| Para quem | Renda baixa ou eventual | Quem quer estabilidade | Quem fatura de forma recorrente |
O CLT traz benefícios que custam dinheiro ao empregador, como 13º, férias e FGTS. Por isso, ao comparar uma proposta CLT com uma PJ, compare o líquido total do ano, e não o valor mensal. A calculadora de CLT × PJ faz essa conta. Se você atua por cooperativa, veja médico cooperado × médico PJ.
13. Quatro casos completos em números
Os casos consideram um sócio sem funcionários, sem deduções, ISS de 3% no Lucro Presumido e pró-labore mínimo quando não há Fator R. Os valores são aproximados e servem para mostrar a lógica; o seu caso deve ser simulado com os números reais.
Caso 1: médica em início de carreira, R$ 12 mil por mês
| Opção | Impostos por mês | Percentual |
|---|---|---|
| Autônoma | cerca de R$ 3.066 | 25,5% |
| Simples, Anexo III (pró-labore de R$ 3.360) | cerca de R$ 1.090 | 9,1% |
| Simples, Anexo V | cerca de R$ 2.038 | 17% |
| Lucro Presumido | cerca de R$ 2.222 | 18,5% |
Melhor opção: Simples com Fator R. A economia em relação à pessoa física passa de R$ 23 mil por ano. Como o pró-labore fica abaixo de R$ 5 mil, não há IR sobre ele em 2026.
Caso 2: plantonista, R$ 30 mil por mês
| Opção | Impostos por mês | Percentual |
|---|---|---|
| Autônomo | cerca de R$ 8.016 | 26,7% |
| Simples, Anexo III (pró-labore de R$ 8.400) | cerca de R$ 4.651 | 15,5% |
| Simples, Anexo V | cerca de R$ 5.203 | 17,3% |
| Lucro Presumido | cerca de R$ 4.802 | 16% |
Melhor opção: Simples com Fator R, com o Presumido perto. A economia em relação à pessoa física é de cerca de R$ 40 mil por ano. Veja o guia de contabilidade para plantonista.
Caso 3: médico com agenda cheia, R$ 60 mil por mês
| Opção | Impostos por mês | Percentual |
|---|---|---|
| Autônomo | cerca de R$ 16.266 | 27,1% |
| Simples, Anexo III (pró-labore de R$ 16.800) | cerca de R$ 11.016 | 18,4% |
| Simples, Anexo V | cerca de R$ 11.053 | 18,4% |
| Lucro Presumido | cerca de R$ 9.101 | 15,2% |
Melhor opção: Lucro Presumido. O Fator R já não compensa, porque o IR sobre um pró-labore alto anula o ganho do Anexo III. A diferença para o Simples passa de R$ 23 mil por ano.
Caso 4: médico com consultório e equipe, R$ 120 mil por mês
| Opção | Impostos por mês | Percentual |
|---|---|---|
| Autônomo | cerca de R$ 32.766 | 27,3% |
| Simples, Anexo III (pró-labore de R$ 33.600) | cerca de R$ 25.236 | 21% |
| Simples, Anexo V | cerca de R$ 23.353 | 19,5% |
| Lucro Presumido (com adicional de IRPJ) | cerca de R$ 19.539 | 16,3% |
Melhor opção: Lucro Presumido, e vale avaliar a equiparação hospitalar se houver procedimentos, além da Lei 15.270 na distribuição de lucros, já que a retirada provavelmente passará de R$ 50 mil por mês. Nesse patamar, entra também o planejamento patrimonial.
14. Obrigações mensais e anuais
A empresa do médico tem uma rotina de obrigações. A contabilidade cuida da maior parte, mas é bom saber o que existe:
| Quando | Obrigação | Regime |
|---|---|---|
| Todo mês | Emitir as notas fiscais | Todos |
| Todo mês, até o dia 20 | DAS do Simples (PGDAS-D) | Simples |
| Todo mês ou trimestre | IRPJ, CSLL, PIS, COFINS e ISS | Presumido |
| Todo mês | Pró-labore no eSocial e INSS (DCTFWeb) | Todos |
| Quando há retenção | EFD-Reinf | Conforme o caso |
| Fevereiro | DMED, com os pagamentos de pacientes pessoa física | Todos |
| Março | DEFIS | Simples |
| Anual | Anuidade do CRM-PJ e renovação do certificado digital | Todos |
| Anual | Revisão do regime tributário para o ano seguinte | Todos |
Para não perder prazos, salve o calendário de vencimentos na sua agenda.
15. Reforma tributária: o que muda para o médico PJ
A reforma tributária substitui PIS, COFINS, ISS e ICMS por dois novos tributos, a CBS (federal) e o IBS (estados e municípios), com transição de 2026 a 2033. Para o médico PJ, os pontos principais são:
- 2026: ano de teste, com CBS de 0,9% e IBS de 0,1% destacados na nota, sem pagamento efetivo para quem cumpre as obrigações.
- 2027: a CBS passa a valer de verdade e PIS e COFINS acabam. Quem está no Simples continua pagando pelo DAS, mas pode optar pelo Simples Híbrido, recolhendo IBS e CBS por fora para que os clientes empresa aproveitem créditos.
- 2029 a 2032: o ISS vai sendo substituído aos poucos pelo IBS.
- 2033: o sistema novo passa a valer por completo.
- Saúde com alíquota reduzida: a LC 214/2025 prevê redução para serviços de saúde, o que diminui o impacto para a maioria dos médicos.
Quem atende principalmente hospitais e empresas deve avaliar o Simples Híbrido; quem atende pacientes pessoa física tende a ficar no Simples tradicional. Simule com a calculadora Simples × Híbrido e leia o guia da reforma tributária para médicos e split payment na saúde.
16. Erros mais comuns do médico PJ
- Ficar no Anexo V sem saber: sem pró-labore adequado, o Fator R cai e o imposto quase triplica na primeira faixa.
- Nunca revisar o regime: o regime que era o melhor com R$ 20 mil por mês pode ser o pior com R$ 60 mil.
- Misturar conta pessoal e conta PJ: complica a contabilidade e a comprovação dos lucros.
- CNAE errado: pode elevar o ISS ou o anexo do Simples.
- Não registrar a empresa no CRM: gera problema com o conselho e com contratantes.
- Aceitar retenções indevidas na nota: empresa do Simples pagando retenção federal que não deveria.
- Esquecer a DMED: os pagamentos de pacientes pessoa física precisam ser informados todo ano.
- Distribuir lucro sem lastro: retirar mais do que a empresa lucrou.
- Ignorar a Lei 15.270: distribuições acima de R$ 50 mil por mês têm retenção de 10%.
- Contrato com cláusulas de subordinação: aumenta o risco de a relação ser vista como emprego.
Para saber se a sua empresa tem algum desses problemas, veja os sinais de que você paga imposto demais.
17. Despesas que a empresa pode pagar
No Lucro Presumido e no Simples, os impostos incidem sobre o faturamento, e não sobre o lucro. Por isso, despesas não reduzem o imposto da empresa como reduziriam no livro-caixa da pessoa física. Mas pagar as despesas da atividade pela empresa organiza o caixa e aumenta o lucro contábil que pode ser comprovado. Exemplos: cursos e congressos da especialidade, equipamentos, seguro de responsabilidade civil, anuidade do CRM-PJ, softwares, marketing e contabilidade. Veja o que o médico PJ pode deduzir.
18. Proteção, dados e patrimônio
- Seguro de responsabilidade civil: muitos contratos exigem, e ele protege o seu patrimônio.
- LGPD: prontuários e dados de pacientes têm regras próprias. Veja LGPD para o médico PJ.
- Reserva financeira: de 3 a 6 meses de despesas, já que não há férias nem 13º.
- Holding e sucessão: quando o patrimônio cresce, avalie o diagnóstico de holding.
19. Como escolher a contabilidade
A contabilidade do médico PJ não é só emitir guias. Ela define o regime, o Fator R, o pró-labore e a distribuição de lucros, e é onde está a maior parte da economia. Procure uma contabilidade que:
- conheça as regras da saúde, como CNAE, CRM, DMED, ISS e equiparação hospitalar;
- revise o regime todo ano;
- simule o seu caso com números antes de decidir;
- atenda rápido pelo canal que você usa;
- tenha preço claro, sem 13ª mensalidade.
Veja o checklist para escolher o contador ideal e os planos da Move Online, a partir de R$ 89 por mês.
20. Médico PJ por perfil de atuação
As regras são as mesmas para todos, mas cada perfil tem pontos de atenção próprios.
Recém-formado e residente
No início da carreira, a renda costuma vir de plantões e de poucos tomadores. A SLU no Simples, com Fator R, é quase sempre o melhor ponto de partida: custo baixo e imposto a partir de 6%. Quem está na residência e faz plantões extras também pode ter CNPJ, desde que a bolsa da residência siga como renda de pessoa física. Comece com uma estrutura simples e revise quando a renda crescer. Veja médico recém-formado: SLU, EI ou autônomo.
Plantonista
O plantonista tem vários tomadores, notas mensais por hospital, retenções e, muitas vezes, plantões em mais de uma cidade. Os pontos críticos são o ISS por município, o controle de glosas e atrasos e a revisão do pró-labore, porque o faturamento varia de um mês para o outro. Tudo isso está no guia de contabilidade para médico plantonista.
Cirurgião e médico de procedimentos
Quem faz cirurgias e procedimentos costuma ter faturamento mais alto e honorários pagos por hospitais, convênios e pacientes particulares. Com faturamento acima de R$ 50 mil por mês, o Lucro Presumido tende a ser a melhor opção. Se a empresa tiver estrutura própria de natureza hospitalar, vale estudar a equiparação hospitalar. Atenção também à Lei 15.270: retiradas acima de R$ 50 mil por mês da mesma empresa têm retenção de 10%.
Médico com consultório próprio
Com consultório, a empresa passa a ter custos fixos (aluguel, secretária, sistemas), atende pacientes pessoa física e precisa de licenças, Vigilância Sanitária e CNES. As notas para pacientes entram na DMED. Se você tiver funcionários, a folha ajuda no Fator R. Avalie também se o imóvel do consultório deve ficar na pessoa física, na empresa ou numa holding. Veja autolocação: alugar o seu imóvel para a própria PJ.
Telemedicina
Na telemedicina, a dúvida mais comum é onde pagar o ISS quando o paciente está em outro município ou estado. Em regra, vale o município da sua empresa, mas é preciso conferir a legislação de cada caso e emitir a nota corretamente. Veja telemedicina: regras de ISS e notas fiscais.
Médico que atende convênios
O atendimento credenciado é pago por produção, com tabelas, glosas e prazos longos. O ponto principal é o controle: conferir cada demonstrativo, recorrer de glosas no prazo e registrar o recebimento por nota. Se você atende convênios por meio de uma clínica, entenda como é feito o repasse e quem emite a nota.
21. Sociedade entre médicos: como dividir os lucros
Quando dois ou mais médicos montam uma empresa, a parte tributária é a mesma, mas a divisão do dinheiro precisa de regras claras. Os pontos que o contrato social deve prever são:
- Divisão de lucros: proporcional ao capital ou à produção de cada sócio. A divisão desproporcional é permitida, desde que prevista no contrato social ou em ata.
- Pró-labore de cada sócio: conforme o trabalho de cada um e a estratégia do Fator R.
- Despesas comuns: como serão rateadas (aluguel, equipe, sistemas).
- Entrada e saída de sócios: como se calcula o valor das quotas e o prazo de pagamento.
- Falecimento ou incapacidade: o que acontece com a participação do sócio.
- Não concorrência: regras para quem sai da sociedade.
Uma sociedade bem estruturada evita conflitos e permite planejar a distribuição de lucros de cada sócio dentro do limite de R$ 50 mil por mês da Lei 15.270. Veja sociedade entre médicos: como estruturar sem conflito.
22. O primeiro mês como médico PJ
Com o CNPJ aberto, o primeiro mês define a rotina. Esta é a ordem prática:
- Avise os tomadores: envie o cartão do CNPJ, os dados bancários da conta PJ e, se for o caso, a comprovação do Simples.
- Revise ou assine os contratos no nome da empresa.
- Emita a primeira nota de cada tomador, com a descrição correta e sem retenções indevidas.
- Defina o pró-labore com a contabilidade, considerando o Fator R.
- Separe uma parte de cada recebimento para os impostos, guardando na própria conta PJ.
- Pague o primeiro DAS ou as guias do Presumido no vencimento.
- Organize os comprovantes de despesas pagas pela empresa.
- Salve o calendário de obrigações e marque a revisão do regime para o fim do ano.
23. Como sair do autônomo ou do CLT para PJ
A transição costuma ser gradual. Algumas recomendações:
- Não cancele tudo de uma vez: muitos médicos mantêm um vínculo CLT enquanto os plantões como PJ crescem.
- Compare o líquido do ano: uma proposta PJ precisa compensar a perda de férias, 13º e FGTS.
- Mude o recebimento por tomador: cada hospital ou clínica passa a pagar a empresa a partir de uma data combinada.
- Atenção ao carnê-leão: o que você recebeu como pessoa física até a mudança continua no carnê-leão daquele período.
- INSS: se você tem CLT e PJ ao mesmo tempo, as contribuições somadas respeitam o teto.
24. Como declarar o Imposto de Renda sendo médico PJ
Na declaração da pessoa física, o médico PJ informa:
- Pró-labore: como rendimento tributável recebido de pessoa jurídica, com o INSS e o IR retidos, conforme o informe de rendimentos da sua empresa.
- Lucros distribuídos: como rendimento isento (até os limites da lei) ou, a partir de 2026, com a retenção de 10% quando a distribuição passar de R$ 50 mil no mês.
- Participação na empresa: em bens e direitos, com o valor das quotas.
- Outros rendimentos: CLT, plantões como pessoa física e informes de hospitais e cooperativas. Veja como ler o informe de rendimentos de hospitais e cooperativas.
Com a Lei 15.270, quem tem renda total acima de R$ 600 mil por ano precisa conferir o IR mínimo na declaração. O passo a passo está em Imposto de Renda 2026 para médicos PJ.
25. Organização financeira do médico PJ
A empresa só traz economia de verdade quando o dinheiro está organizado. Uma estrutura simples que funciona para a maioria:
- Conta PJ: recebe todos os pagamentos e paga impostos, contabilidade e despesas da atividade.
- Reserva de impostos: uma parte de cada recebimento fica separada para o DAS ou as guias do mês.
- Retiradas programadas: pró-labore e lucros em datas fixas, de preferência uma vez por mês.
- Conta pessoal: recebe as retiradas e paga as despesas da família.
- Reserva de emergência e investimentos: na pessoa física ou, quando faz sentido, na própria empresa.
Veja como separar as finanças da PF e da PJ.
26. Mitos e verdades sobre o médico PJ
- “Médico PJ não paga imposto sobre os lucros.” Meia verdade. Os lucros seguem isentos até R$ 50 mil por mês por empresa, mas acima disso há retenção de 10%, e rendas anuais acima de R$ 600 mil têm um IR mínimo.
- “O Simples é sempre mais barato.” Mito. A partir de R$ 40 mil a R$ 50 mil por mês, o Lucro Presumido costuma sair mais barato, como mostram os casos do capítulo 13.
- “Basta abrir o CNPJ para pagar 6%.” Mito. Os 6% valem só no Anexo III, com Fator R de 28% ou mais, e só na primeira faixa de faturamento.
- “Médico PJ não se aposenta.” Mito. Quem contribui sobre o pró-labore tem direito à aposentadoria pelo INSS; o valor depende das contribuições.
- “Ser PJ é ilegal ou é fraude.” Mito. Prestar serviço por meio de empresa é legal. O problema é a pejotização com subordinação, quando a relação é, na prática, de emprego.
- “Com empresa, posso pagar todas as minhas contas pela PJ.” Mito. Despesas pessoais pagas pela empresa confundem a contabilidade e podem ser tratadas como distribuição de lucros disfarçada.
- “Contabilidade é só para emitir guia.” Mito. A maior economia vem das decisões: regime, Fator R, pró-labore e distribuição de lucros.
27. Pejotização: os riscos e como se proteger
Pejotização é quando uma relação que tem todas as características de emprego, como horário fixo, chefia, exclusividade e salário mensal, é formalizada como contrato com uma empresa. Para o contratante, o risco é trabalhista e previdenciário. Para o médico, o risco é ficar sem os direitos do emprego e, ao mesmo tempo, sem a autonomia que justifica o contrato PJ.
Para que a relação seja de fato entre empresas:
- o médico deve ter autonomia técnica e de agenda;
- a remuneração deve ser por serviço prestado (plantão, consulta, produção), e não um salário fixo sem relação com a produção;
- o contrato não deve prever exclusividade sem contrapartida;
- a empresa do médico deve ser real: CNPJ ativo, registro no CRM, contabilidade e notas fiscais regulares.
Veja as cláusulas que fazem diferença em contrato de médico PJ.
28. Crédito e financiamento para o médico PJ
Ter empresa facilita o acesso a crédito para consultório, equipamentos e imóveis, desde que a empresa tenha faturamento comprovado e contabilidade em dia. Bancos olham o faturamento declarado, o tempo de CNPJ, o histórico de pagamentos e, para financiamentos maiores, o balanço. Antes de financiar, compare se a compra deve ser feita pela pessoa física ou pela empresa. Leia financiar consultório próprio: PF ou PJ e score de crédito da PJ médica, e simule as parcelas no simulador de crédito.
29. Quanto o médico PJ economiza em 10 anos
A diferença de imposto parece pequena no mês, mas é grande no longo prazo. No caso 2 (R$ 30 mil por mês), a economia em relação à pessoa física é de cerca de R$ 40 mil por ano. Se esse valor for investido todo mês, rendendo cerca de 0,8% ao mês, em 10 anos se transforma em aproximadamente R$ 667 mil. No caso 3, a escolha do Lucro Presumido em vez do Simples economiza cerca de R$ 23 mil por ano, o que, nas mesmas condições, chega a cerca de R$ 384 mil em 10 anos.
É por isso que a revisão anual do regime e do pró-labore é tão importante: cada ano no regime errado é um dinheiro que não volta.
30. Um ano completo, do CNPJ à primeira distribuição
Para juntar tudo, veja um exemplo ilustrativo de uma médica clínica que decide virar PJ. Os números são aproximados.
Mês 1: a decisão
A médica faz plantões em dois hospitais e atende uma clínica, faturando cerca de R$ 30 mil por mês como autônoma, com cerca de 27% de impostos. Um dos hospitais passa a exigir CNPJ. Ela simula os regimes: no Simples com Fator R, a carga cai para cerca de 15,5%.
Meses 1 e 2: a abertura
Ela abre uma SLU com o CNAE de atividade médica ambulatorial restrita a consultas, usa endereço fiscal (não tem consultório) e opta pelo Simples Nacional. Registra a empresa no CRM, emite o certificado digital e abre a conta PJ. Em cerca de duas semanas, a empresa está pronta para emitir notas.
Mês 3: a rotina começa
Ela avisa os três tomadores, assina os contratos no nome da empresa e emite uma nota por tomador no fim do mês. Um dos hospitais retém ISS; os outros pagam o valor cheio. O pró-labore é definido em R$ 8.400 para manter o Fator R, e ela separa os impostos na própria conta PJ.
Meses 4 a 9: ajustes
Um hospital atrasa 60 dias e outro glosa dois plantões. Com o controle de notas, ela cobra os valores e contesta a glosa dentro do prazo do contrato. No sexto mês, o faturamento sobe, e a contabilidade ajusta o pró-labore para manter o Fator R em 28%.
Mês 12: o fechamento
No fim do ano, a empresa apura o lucro, distribui o que sobrou de forma isenta (bem abaixo de R$ 50 mil por mês) e simula o regime do ano seguinte. Como o faturamento deve chegar a R$ 45 mil por mês, a contabilidade compara de novo o Simples e o Lucro Presumido. A economia do primeiro ano em relação à pessoa física fica em torno de R$ 40 mil.
O que fez diferença
- simular antes de escolher o regime;
- manter o Fator R com o pró-labore certo;
- controlar notas, retenções e glosas;
- revisar o regime no fim do ano, antes de janeiro.
31. Perguntas para fazer ao contador antes de abrir
- Qual tipo de empresa é o melhor para o meu caso: SLU, limitada ou sociedade simples?
- Qual CNAE devo usar e qual será o ISS no meu município?
- Simples ou Lucro Presumido? Pode simular com o meu faturamento?
- Qual pró-labore devo ter para o Fator R, e quanto vou pagar de INSS e IR?
- Quanto vou poder distribuir de lucro por mês, e como fica a Lei 15.270?
- Quem cuida do registro no CRM e das licenças?
- Quais são as obrigações mensais e anuais, e o que fica comigo?
- Como funciona o atendimento: WhatsApp, prazo de resposta, contador dedicado?
- Qual é o valor da mensalidade, e há cobrança de 13ª ou de taxas extras?
- Como vocês vão me preparar para a reforma tributária em 2027?
32. O ano do médico PJ, mês a mês
| Mês | O que fazer |
|---|---|
| Janeiro | Conferir a opção pelo Simples e o regime do ano; renovar o pró-labore |
| Fevereiro | Entregar a DMED; receber os informes de rendimentos de hospitais e cooperativas |
| Março | Entregar a DEFIS (Simples); emitir o informe de rendimentos da própria empresa |
| Abril e maio | Declarar o Imposto de Renda da pessoa física |
| Junho | Revisar o Fator R do semestre e os contratos |
| Julho a setembro | Acompanhar o faturamento e a distribuição de lucros; atualizar a reserva |
| Outubro e novembro | Simular o regime do próximo ano e planejar a distribuição de lucros |
| Dezembro | Fechar o ano: distribuir lucros, revisar a Lei 15.270 e decidir o regime de janeiro |
Todo mês, além disso: emitir as notas, pagar o DAS ou as guias e registrar o pró-labore.
33. Checklist do médico PJ
- Empresa aberta com o tipo certo: SLU, limitada ou sociedade simples.
- CNAE correto para a sua atividade.
- Registro no CRM e responsável técnico definido.
- Regime tributário escolhido com simulação.
- Pró-labore definido conforme o Fator R ou o Presumido.
- Conta PJ separada.
- Certificado digital e emissão de notas configurados.
- Contratos revisados com cada tomador.
- Controle de notas, retenções e recebimentos.
- Calendário de obrigações salvo.
- Revisão anual do regime e da distribuição de lucros.
- Plano para a reforma tributária a partir de 2027.
34. Glossário
- Anexo III e Anexo V: tabelas do Simples Nacional onde a medicina pode ser enquadrada, com alíquotas iniciais de 6% e 15,5%.
- CBS e IBS: os tributos da reforma tributária que substituem PIS, COFINS, ISS e ICMS.
- CNAE: o código da atividade da empresa.
- CNES: o cadastro nacional dos estabelecimentos de saúde.
- DAS: a guia única mensal do Simples Nacional.
- DEFIS: a declaração anual das empresas do Simples.
- DMED: a declaração anual dos pagamentos de pacientes pessoa física.
- Distribuição de lucros: a retirada do lucro da empresa pelos sócios.
- Equiparação hospitalar: regra que reduz a presunção de lucro de clínicas com serviços de natureza hospitalar.
- Fator R: a relação entre a folha e o faturamento, que define o anexo do Simples.
- Lucro Presumido: regime em que os tributos incidem sobre um lucro presumido de 32% para serviços.
- NFS-e: a nota fiscal de serviço eletrônica.
- Pró-labore: a remuneração do sócio pelo trabalho na empresa.
- RBT12: a receita bruta dos últimos 12 meses, usada para calcular o Simples.
- Retenção na fonte: imposto descontado pelo tomador ao pagar a nota.
- Simples Híbrido: opção do Simples, a partir de 2027, de recolher IBS e CBS por fora do DAS.
- SLU: Sociedade Limitada Unipessoal, empresa com um único sócio.
- Sociedade uniprofissional: sociedade de profissionais da mesma área que pode pagar ISS fixo em alguns municípios.
- Split payment: sistema da reforma em que o imposto é separado no momento do pagamento.
- Tomador: quem contrata e paga o serviço, como o hospital ou a clínica.
Fontes e atualização
Este guia segue a LC 123/2006 (Simples Nacional), a Lei 9.249/1995 (Lucro Presumido e equiparação hospitalar), a Lei 15.270/2025 (lucros e IR mínimo) e a LC 214/2025 (reforma tributária). Os percentuais dos casos são aproximados, sem deduções, e servem para comparar os regimes. Conteúdo revisado em 03/10/2026 por Wanderson Pires, contador e tributarista, CRC SP 280216/O-0.

“Criamos a Move para transformar a contabilidade médica em ferramenta de crescimento. Aqui, o foco é permitir que o médico empreenda com segurança, pague menos impostos e tenha tranquilidade para cuidar de vidas.”
Wanderson PiresContador e Tributarista · CRC SP 280216/O-0Perguntas frequentes sobre médico PJ
Médico pode ser MEI?
Não. A medicina não está entre as atividades permitidas no MEI. O caminho é abrir uma SLU, uma sociedade limitada ou uma sociedade simples.
Quanto o médico PJ paga de imposto?
No Simples Nacional, a partir de 6% no Anexo III (com Fator R de 28% ou mais) ou 15,5% no Anexo V. No Lucro Presumido, cerca de 11,33% mais ISS. Somando INSS e IR do pró-labore, o total costuma ficar entre 9% e 21% do faturamento.
A partir de quanto vale a pena virar PJ?
Em geral, a partir de R$ 6 mil a R$ 8 mil de faturamento por mês, ou quando o contratante exige CNPJ.
Simples ou Lucro Presumido: qual é melhor para médico?
Até perto de R$ 30 mil por mês, o Simples com Fator R costuma ganhar. A partir de R$ 40 mil a R$ 50 mil, o Lucro Presumido tende a ficar mais barato. O ideal é simular todo ano.
O que é o Fator R?
É a relação entre a folha de pagamento (incluindo o pró-labore) e o faturamento dos últimos 12 meses. Com 28% ou mais, a empresa fica no Anexo III do Simples, mais barato.
Quanto de pró-labore o médico PJ deve tirar?
No Simples, buscando o Anexo III, cerca de 28% do faturamento. No Lucro Presumido, em geral um valor baixo, com o restante retirado como lucro.
Os lucros do médico PJ pagam IR?
Continuam isentos até R$ 50 mil por mês por empresa. Acima disso, há retenção de 10% pela Lei 15.270/2025, e quem tem renda anual acima de R$ 600 mil passa a ter um IR mínimo.
O médico PJ precisa registrar a empresa no CRM?
Sim. Toda empresa que presta serviços médicos precisa de registro no CRM do estado e de um médico como responsável técnico.
Preciso de consultório para abrir CNPJ?
Não. Quem atende só em hospitais e clínicas pode usar endereço fiscal, o que reduz licenças e custos.
O hospital pode reter imposto da minha nota?
Pode reter ISS e, se a empresa não for do Simples, IR de 1,5% e contribuições de 4,65%. Os valores são abatidos dos impostos da empresa.
Médico PJ tem direito a férias e 13º?
Não automaticamente. Esses direitos são do CLT. Como PJ, você pode negociar condições no contrato e deve manter uma reserva financeira.
Médico PJ se aposenta pelo INSS?
Sim, contribuindo sobre o pró-labore. Como o pró-labore costuma ser menor que o faturamento, vale complementar com previdência privada.
Posso ter CLT e PJ ao mesmo tempo?
Sim. Muitos médicos têm um vínculo CLT e fazem plantões ou atendimentos como PJ. O INSS do CLT é considerado no teto.
O que muda para o médico PJ com a reforma tributária?
A partir de 2027, a CBS substitui PIS e COFINS, e de 2029 a 2032 o IBS substitui o ISS. A saúde tem alíquota reduzida, e quem está no Simples poderá escolher o Simples Híbrido.
Residente pode ter CNPJ?
Pode, para os plantões e atendimentos fora da residência. A bolsa da residência continua sendo renda de pessoa física.
Como fica o ISS na telemedicina?
Em regra, o ISS é devido no município da sua empresa, mas é preciso conferir a legislação de cada caso e emitir a nota corretamente.
Como os sócios dividem os lucros?
Conforme o contrato social: proporcional ao capital ou à produção. A divisão desproporcional é permitida, desde que prevista no contrato ou em ata.
Como declaro o pró-labore e os lucros no IR?
O pró-labore entra como rendimento tributável recebido de pessoa jurídica, e os lucros como rendimento isento até os limites da Lei 15.270/2025, com base no informe de rendimentos da empresa.
Quanto guardar para os impostos?
Separe, a cada recebimento, o percentual do seu regime: algo entre 6% e 16% do faturamento, mais o INSS e o IR do pró-labore.
Quanto custa a contabilidade do médico PJ?
Na Move Online, de R$ 89 a R$ 497 por mês, conforme o volume de notas e o acompanhamento, sem 13ª mensalidade.
Ferramentas gratuitas para a sua PJ

Mande a sua pergunta. Eu respondo pessoalmente.
Falar com o WandersonConteúdo informativo, com base na legislação vigente na data de publicação. Cada caso deve ser analisado com os números da própria empresa.


