Terminou a residência, começou os plantões, o primeiro contrato de PJ apareceu — e junto veio a pergunta que quase ninguém explica direito: eu abro empresa agora ou continuo como autônomo? E se abrir, o que é isso de SLU, EI, LTDA que aparece no Google?
A resposta curta é: depende do seu faturamento, do tipo de contratante (hospital, clínica, particular) e de quanto você quer separar a sua vida financeira pessoal da profissional. A resposta longa vem abaixo — sem tabela pronta, porque a decisão que serve para um plantonista de UTI não é a mesma que serve para um médico de consultório particular.
Os três caminhos possíveis para o médico recém-formado
Antes de qualquer conta de imposto, é preciso entender o que cada opção é juridicamente. Muita confusão começa aqui, porque os termos se misturam em tabelas prontas na internet.
1. Autônomo (pessoa física)
Você continua sendo só você — nenhum CNPJ, nenhuma empresa. Emite RPA (Recibo de Pagamento a Autônomo) ou recebe direto como PF. A tributação segue a tabela do Imposto de Renda Pessoa Física: alíquota progressiva que em 2026 chega a 27,5% sobre o que passa da faixa de isenção mensal (R$ 5.000 para rendimentos tributáveis, com regras específicas para o desconto simplificado).
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Some a isso o INSS de 20% sobre o rendimento (até o teto do INSS, cerca de R$ 1.700/mês) e o ISS de 2% a 5% (dependendo do município) se você atender pacientes particulares. Na prática, um médico autônomo com faturamento razoável perde entre 25% e 40% só em tributos federais e municipais — sem contar despesas de consultório, materiais, etc.
2. EI — Empresário Individual
Aqui já entra um CNPJ. O EI é a pessoa física exercendo atividade empresarial com registro na Junta Comercial. Simples de abrir, sem sócios, custo baixo de manutenção. Não há separação patrimonial: seu CPF e seu CNPJ respondem pelas mesmas dívidas — se der um problema na empresa, seu patrimônio pessoal (carro, imóvel) pode ser acionado.
O EI pode optar pelo Simples Nacional. Para médico, entra no Anexo III ou V dependendo do Fator R — a mesma lógica que vale para qualquer PJ médica.
3. SLU — Sociedade Limitada Unipessoal
Também é um CNPJ, mas com estrutura jurídica de sociedade limitada, só que com um único sócio (você). A diferença essencial em relação ao EI é a separação patrimonial: o patrimônio da empresa responde pelas dívidas da empresa; o seu, pelo seu. Se algo der errado, o carro que está no seu nome não é penhorado por dívida da SLU (com as ressalvas legais).
A SLU também opta pelo Simples ou Lucro Presumido, exatamente como uma LTDA de dois ou mais sócios — a única diferença estrutural é o número de sócios. Por isso, quem já ouviu falar de LTDA e SLU e ficou confuso: são a mesma coisa juridicamente, só muda a composição societária.
Quanto isso custa, na prática
Aqui está uma simulação simplificada para um médico com R$ 20.000/mês de faturamento (R$ 240.000/ano). Números arredondados só para dar ordem de grandeza — a conta real depende de despesas, retenções, município e regime.
| Regime | Carga tributária estimada | O que fica no bolso |
| Autônomo (PF) | ~30-33% (IR + INSS + ISS) | ~R$ 13.400/mês |
| EI no Simples (Anexo III, Fator R OK) | ~11-13% (DAS + INSS pró-labore) | ~R$ 17.400/mês |
| SLU no Simples (Anexo III, Fator R OK) | ~11-13% (DAS + INSS pró-labore) | ~R$ 17.400/mês |
A diferença entre autônomo e PJ com Simples otimizado pode passar de R$ 40.000 por ano no bolso para um médico com faturamento de R$ 20.000/mês. Para faturamentos maiores, a diferença cresce.
Entre EI e SLU no Simples, a tributação é praticamente a mesma. A escolha entre eles é jurídica, não tributária: proteção patrimonial, imagem de mercado, transferência futura de cotas para sucessores. Nesses três pontos, a SLU ganha.
Quanto você poderia economizar?
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Quando cada opção faz sentido
Continuar como autônomo pode fazer sentido quando:
- Faturamento ainda é baixo e instável (< R$ 5-8 mil/mês)
- Você é celetista em hospital e faz plantões esporádicos como PF
- Não há previsão de crescimento no curto prazo e o custo de manter empresa (contador, taxas) inviabiliza a economia
Abrir EI pode fazer sentido quando:
- Você quer começar rápido, com custo mínimo, e não tem patrimônio significativo a proteger
- É uma transição — testando a viabilidade da PJ antes de migrar para SLU
- Já entendeu que a separação patrimonial pode ser feita depois (transformação de EI em SLU é possível)
Abrir SLU faz sentido quando:
- Faturamento já justifica a estrutura (a partir de R$ 8-10 mil/mês, na maioria dos casos)
- Você tem patrimônio pessoal que quer proteger (imóveis, aplicações)
- Vai atender via hospital, clínica ou operadora — muitos contratantes só aceitam PJ, e alguns fazem distinção entre EI e sociedade
- Pensa em ter sócios no futuro (a transformação de SLU em LTDA é simples)
Erros comuns nessa decisão
“Vou continuar autônomo porque é mais simples.” Simples no papel, caro no fim do ano. Um médico com R$ 15-20 mil/mês de faturamento como autônomo paga, em impostos, o valor de meses inteiros de faturamento que teria como PJ bem estruturada.
“Abro EI porque é mais barato de manter.” A diferença de custo mensal entre EI e SLU é pequena (contabilidade e taxas praticamente iguais). Trocar proteção patrimonial por R$ 50-100 de economia mensal é uma escolha ruim para quem tem qualquer patrimônio.
“Escolhi PJ pelo imposto, esqueci do resto.” Abrir CNPJ envolve mais do que impostos: emissão de nota fiscal, inscrição no CRM-PJ (obrigatória no CREMESP para atuar como PJ médica), definição de CNAE correto (veja quais códigos usar por especialidade), enquadramento no Simples ou Lucro Presumido e definição de pró-labore. Cada uma dessas peças mal escolhida cria problema depois.
“Segui a orientação de um colega.” O colega tem faturamento diferente, especialidade diferente, contratante diferente, patrimônio diferente. A conta que fecha para ele quase nunca fecha para você.
O que fazer, na prática
Para um médico recém-formado, o processo é sempre o mesmo:
- Levantar faturamento realista dos próximos 12 meses — não o “sonho”, o mínimo esperado com o que já está contratado ou em vias de contratar
- Identificar contratantes — hospital exige PJ? A operadora paga PF? Você atende particular também?
- Simular os três cenários (autônomo, EI, SLU) com o faturamento real, incluindo custos de manutenção da empresa
- Decidir sobre proteção patrimonial — você tem bens no seu nome que precisa proteger?
- Definir pró-labore se for PJ — o valor certo influencia o Fator R e o regime tributário aplicável
Esse é o tipo de decisão que impacta o médico pelos próximos anos. Escolher errado no começo cria retrabalho: transformar EI em SLU depois é possível, mas envolve novo contrato social, atualização em CRM, contratos, bancos, notas em aberto. Vale investir tempo na decisão inicial.
Se você quer entender o passo a passo completo depois de decidir o formato, o guia sobre como abrir CNPJ para médico em 2026 cobre desde a escolha do CNAE até a inscrição no CREMESP.
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Artigo publicado em julho de 2026, considerando a tabela de IR vigente (Lei 14.663/2023 e faixa de isenção mensal ampliada para R$ 5.000 a partir de 2026), a estrutura do Simples Nacional (LC 123/2006 e LC 155/2016) e as regras de sociedade limitada previstas no Código Civil. A legislação tributária pode mudar; a escolha da estrutura empresarial deve considerar sempre o caso concreto.
De contador para médico: um recado do fundador.
“Criamos a Move para transformar a contabilidade médica em ferramenta de crescimento. Aqui, o foco é permitir que o médico empreenda com segurança, pague menos impostos e tenha tranquilidade para cuidar de vidas.”
Wanderson Pires
Contador e Tributarista
CRC SP 280216/O-0


